CONTEMPLAÇÃO

Aparentemente a contemplação pode parecer ser, algo dissonante sob uma ótica, onde o tempo se acelera na direção de um progresso matemático, que não admite perdas. Fala-se “tempo é dinheiro”. No entanto, contemplar é ir para além da materialidade, onde não se contabiliza, mas, se vive na experiência do encontro de uma consciência com espaços internos de um “si mesmo”. Aqui não há perdas, há experiência vivida na sabedoria silenciosa. Na contemplação, o tempo deixa sua linearidade comparativa para se expressar na pura experiência do contato pessoal. Julia Kristeva, diria que na contemplação o tempo se “ergue na vertical”, são instantes vividos com intensidade que se eternizam no encontro sagrado.

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Vivi

FACES DO SENSÍVEL

A razão sensível que se evidencia na pós-modernidade, está nas ruas, nas modas, nas músicas, poesia, modos de ser das pessoas que ocupam os espaços públicos.  O homem comum abre seus espaços ocupando-se de sua dignidade humana. Michel Maffesoli, afirma: “O desenvolvimento da sensibilidade ecológica, a moda dos produtos “orgânicos” e o grande retorno da Senhora Natureza, se inscrevem numa configuração mosaica em que a razão é fortemente temperada pelos sentidos.” Na filosofia, na arte, na sociologia, na arquitetura, inúmeras são as expressões do sensível, sinalizando uma atmosfera pós-moderna, que tende a valorizar formas que se acreditava estarem desaparecidas. Embora suscitando algum pânico a uma sociedade acostumada à regulação e modos controladores dos contratos da razão, as manifestações da face sensível da pessoa comum, manifesta a contaminação das paixões. Reconhecer as novas linguagens e encontrar os meios adequados para se relacionar com elas e todas elas, é um desafio da criatividade dos pactos da pós-modernidade.

Abraços    ****

Vivi

 

METACOGNIÇÃO

A consciência da consciência é a evidência de um refinamento interior. A falta de clareza e consequente falta de discernimento, impedem que as pessoas percebam que não percebem. A metacognição, diz respeito à capacidade de se perceber percebendo, de se reconhecer reconhecendo algo e é fruto da atenção plena, de um treinamento mental. Está disponível à todas pessoas, mas, somente algumas conseguem acessar. A metacognição é companheira do praticante de meditação, aquele que por disciplina, voluntariamente treina sua mente na capacidade de estar atento e desperto, momento a momento do seu viver. O praticante da meditação na plena atenção, já entendeu que a sustentação de um estado de equilíbrio mental, lhe permite acessar a consciência, se percebendo na consciente e isto lhe proporciona liberdade. Liberdade de escolher, de decidir segundo seus valores pessoais, alinhados a uma motivação de beneficiar a si próprio em  benefício de todos os seres. Sua motivação maior é ser ético na sabedoria do estar desperto na vida, beneficiando suas relações, na sacralidade dos encontros.

Abraços    ****

Vivi

PESSOAS LIVRES

Em meio a tantas diversidades inerentes ao convívio humano, o conflito é algo que se faz presente, seja no âmbito das relações intrapessoais como interpessoais. A todo momento estamos diante de escolhas que pedem decisões, seja no simples ato de escolher um copo de água ou um suco natural para saciar a sede e é claro, sempre na dependência das contingências,daquilo que tenho diante de mim para fazer a escolha mais adequada. Das pequenas como nas grandes escolhas, tomar decisões faz parte do viver. Nas relações, diante das diversidades culturais, religiosas, políticas, relacionais, muitos são os momentos que solicitam decisões. Portanto, o conflito é absolutamente natural e até saudável,o que não pode ser admitido é querer resolver os conflitos por meio da violência, da violação do respeito e da dignidade humana. Um dos fundamentos sistêmicos do trabalho com o conflito recai sobre a capacidade de se fazer escolhas. Neste sentido, escolhas responsáveis só podem ser assumidas por pessoas livres. São elas as que possuem a capacidade de reflexão, através de um olhar contextualizado, ampliado na percepção, que permite o discernimento e o bom senso. São as pessoas que cultivam um estado interno de boa vontade para querer compreender e não condenar. O conflito evidencia a complexidade do viver e do conviver e portanto, exige um olhar refinado, contextualizado e não apenas no âmbito da lógica linear. Trabalhar com o conflito é saber pensar com razão sensível, considerando sentimentos, necessidades, modelos relacionais e culturais. Somente pessoas livres no seu pensar, podem compreender que, atuar nas situações conflituosas requer uma capacidade ampliada de consciência, requer uma qualidade de presença que considere o racional e emocional ao mesmo tempo e ainda que tenham um absoluto compromisso com a verdade.

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Vivi

 

APRENDER A VER

Com o órgão da visão, podemos ver o mundo, as coisas, as cores, formas, os rostos, a magnitude do mundo vivo. Mas, será que vemos e reconhecemos o mundo? Embora que tenhamos olhos para ver, muitos são os que não conseguem enxergar, são os cegos da vida. São os que passam por uma existência sem existir, pois não conseguem ver com os olhos do coração, com os olhos da reflexão, com os olhos de pensamento sensível. Estes são os cegos verdadeiros, portadores de uma cegueira que insiste em não reconhecer o sentido profundo da vida e do viver. Se apoltronam em seus padrões de comportamento que atendem às suas conveniências e se deixam cegar para o intenso pulsar da vida. São aqueles que se recusam por comodismo ou conformismo, a reconhecer a onipresença do emocional, das paixões que estão na ordem do dia das relações afetuais, que estão na vitalidade exuberante das efervescências juvenis e em todo murmúrio cultural nesta passagem de época. Aprender a ver, deveria ser uma habilidade que precisaríamos treinar em nossos corações e mentes, para compreender e participar desta efervescência dos acontecimentos que evidenciam novas maneiras de pensar e novas formas de ser e estar neste mundo. Formas que sinalizam o retorno do sensível, da força das pulsões gregárias em diversas manifestações das relações do afetual, como diria M. Maffesoli, aprender a ver com os olhos de um coração sincero e uma mente compreensiva

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Vivi

INDIGNAÇÃO

Diante de situações desumanizantes, o sentimento de indignação emana de um lugar visceral da pessoa humana. A desumanização é insuportável para o humano. O seu senso natural de justiça existente na consciência, impede a esterilidade. Porém, indignação desprovida de reparação, retira potência e dessensibiliza. Quando nos indignamos, a própria consciência pede a reparação. O que fazer? O que eu posso fazer? Como agir? Mesmo que o espaço de ação seja limitado, a reparação precisa ser seguida da indignação. Podemos ser limitados para agir nas macro estruturas, mas, no micro haverá sempre um mundo de possibilidades. Mesmo que seja uma pequena alteração na conduta pessoal, no olhar que compreende e não condena, na capacidade de refletir que favorece a ampliação de percepção para si e para quem esteja à nossa volta, na mudança de uma atitude pessoal, sempre haverá uma possibilidade transformativa. Indignação desprovida de reparação é fonte de mais sofrimento. Coragem não é enfrentar os medos externos, mas, enfrentar com sabedoria os medos internos, que nos paralisam em narrativas sabotadoras da preguiça interior, dos automatismos convenientes, que reforçam os padrões de comportamentos. Quando indignados, somos capazes de criativamente encontrar espaços reparatórios. Assim, nos fazemos mais humanos e humanizamos o meio à nossa volta. Aqui o altruísmo se fortalece e com ele, o compromisso responsável com o bem comum.

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Vivi

NÃO À VIOLÊNCIA

Um dos momentos iluminados da história da humanidade, foi a chamada Era Axial, como foi denominada pelo filósofo Karl Jasper. Um período que ocorreu entre os anos 900 e 200 Antes da Era Comum, onde inúmeras mudanças aconteceram na consciência espiritual do humano. Dentre todas as abordagens que surgiram, o grande salto foi a consciência da negação à violência. Rituais onde muitas pessoas eram sacrificadas foram abolidos, pelo entendimento humano da importância de serem rejeitadas as expressões de violência para um contato com “os deuses”, ou instâncias do sagrado. Rejeitar a violência, foi um grande salto na consciência humana e com ela o crescimento e maturidade da espiritualidade do ser humano. Dizer não à violência é ainda, até os dias de hoje uma ação, uma atitude que temos por cultivar em nossas vidas, é a expressão de um ser espiritual. Todas as tradições religiosas tiveram como proposta a compaixão. Os três monismos, Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, trazem a compaixão como um dos seus pilares fundamentais e com ela a rejeição a qualquer expressão de violência. Assumir esta atitude pessoal, no viver relacional do cotidiano de nossas vidas, é uma expressão de uma pessoa que nutre um espaço interno de aprimoramento pessoal, uma pessoa que se propõe a um contato com o sagrado em seu viver. Dizer não a qualquer manifestação de violência, em pensamento, em palavra, em ação, requer determinação, coragem, presença, força interna. Esta é a atitude de quem conhece seus medos, mas, sabe que não mais precisa mais se sujeitar a eles.

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Vivi

GRANDES MUDANÇAS

Embora sob uma ótica superficial possa parecer que tudo se repete, a realidade é que estamos em meio a grandes mudanças sociais. Outras linguagens pedem passagem a todo momento. Uma enorme mudança de época tem se manifestado na realidade social, nos encontros, nos afetos, nas instituições, nas relações. Parece que, do ponto de vista institucional as formas da modernidade insistem em se fazerem atuantes, mas, do ponto de vista da pós modernidade, os modos de ser e estar se apresentam com novas roupagens.  Compreender e se adequar sem perder o valor dos valores que sustentam e preservam a vida, é nosso desafio permanente neste presente societal. Manejarmos nesta face secreta da história, com nossos afetos e sentimentos de pertença, diante das atrações e repulsões, pede sabedoria, adaptabilidade, adequações, maleabilidade e muita presença de espírito para escolher e escolher bem, ou seja, adequado à proteção da vida. Ter clareza das motivações em cada decisão é mais que fundamental, é decisivo. Coragem e bom senso, pausa e reflexão com uma percepção ampliada e refinada, que possa ver o macro e o micro interdependente na dinâmica das relações, é ponto chave neste contemporâneo.

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Vivi

ACÚSTICA DO CRÂNIO

Ouvir a sua própria voz é sempre impactante para uma pessoa. Se reconhecer no tom de voz, no ritmo da cadência das palavras é no mínimo uma experiência interessante para não dizer reveladora. A acústica do crânio humano vivo, permite que a pessoa ouça a sua voz mas, de forma diferente com que as outras pessoas a ouvem. Quando uma pessoa recebe um feedback de desempenho negativo mas, num tom de voz gentil e solidário, a sensação tende a ser positiva, apesar da negatividade do teor da conversa. O oposto também é interessante. Quando uma pessoa recebe um feedback de desempenho positivo mas, num tom de voz frio, distante e até ríspido, o sentimento é de mal estar, apesar da boa notícia. Transmitir empatia e cuidado pelo tom de voz, é fundamental para que bons relacionamentos sejam estabelecidos. O emocional é o denominador comum dos relacionamentos interpessoais. O compartilhamento grupal pode se fortalecer quando as vozes faladas se estabelecem de forma vincular, confiante, cuidadosa e empática. Para um mediador de conflitos este quesito é absolutamente fundamental.

Abraços    ****

Vivi

HORIZONTALIDADE DA INTERNET

A grande luz que a internet tem colocado nas relações humanas e no conhecimento, tem sido a capacidade de veicular saberes, informações e aproximar pessoas e grupos. Parece que tudo e todos estão na rede, na grande rede humana da virtualidade que se torna realidade. No contemporâneo as estruturas hierarquizantes caem por terra, muros e barreiras são derrubados através das conexões em “tempo real” das realidades. Tudo está em trânsito, em efervescências que impulsionam para novos modos de ser e de pensar. Uma integralidade que não reconhece mais a separação, mas, busca renovar e integrar. A grande rede virtual viabiliza as passagens, onde as conexões se estabelecem continuamente. Poderes, antes estabelecidos em estruturas concretadas por muros intransponíveis agora, se desfazem num imenso curto-circuito em diversas proporções. É o que está aí, é o que se dá a ver e a viver no estar-junto, conectado, ligado. Se precisarmos de hierarquias, são elas horizontalizadas, ou as chamadas hierarquias de realização e não mais de controle. Apesar das controvérsias, a rede da internet é hoje o espaço público onde a pólis se encontra, dialoga, sugere, manifesta, contradiz, expõe, dispõe, aponta, nas mais diversas “performances” de uma refinada “sabedoria dionisíaca”.

Abraços    ****

Vivi