QUANDO A NUVEM ENCOBRE O SOL

Quando uma nuvem surge no céu, ela encobre a luz do sol e a sombra aparece. Se a nuvem for grande, a sombra também será. Se a nuvem for densa, menos luz penetrará, tornando a sombra maior e mais intensa. A medida que os ventos sopram, as nuvens se diluem e a luz do sol pode brilhar, com toda a sua intensidade e os campos e as cidades se iluminam. Assim é o céu da nossa mente. O sol da mente iluminada, da compaixão, está sempre presente na essência amorosa do nosso ser. Enquanto houverem as nuvens dos apegos e desejos egoístas dos padrões mentais, a sombra irá encobrir a verdadeira natureza do nosso ser, nossa amistosidade, cordialidade, gentileza, bondade, nossa compaixão. A mente de sabedoria consegue pelo treinamento da plena atenção, remover os obstáculos que encobrem nossa verdadeira essência, o amor incondicional. A compaixão, fruto da mente de sabedoria, é o nosso estado inerente, basta apenas querer despertar para ver a nossa verdadeira luz. Os praticantes da plena atenção, ao longo da prática disciplinada, conseguem ir removendo os obstáculos que impedem a radiância da sua verdadeira essência. Porém, este é um esforço que não está atrelado ao ascetismo nem à auto-indulgência, mas à vontade verdeira de transformação dos hábitos centrados no ego em sabedoria, através do conhecimento, possibilitando que a compaixão se torne espontânea e auto-sustentável.Remover os hábitos mentais sombrios do egoísmo talvez seja tarefa para uma vida, mas, a prática permanente da plena atenção na consciência, vai permitindo ao praticante manifestar a luz da sua compreensão, da sua alegria genuína fruto da sua sabedoria, renovando a sua motivação. A compreensão de que este é o nosso estado natural que pode ser acessado pelo aprendizado, pela auto-educação, é um passo na direção da maturidade espiritual. Se aprendemos a ser egoístas, podemos aprender a ser amorosos, gentis, cordiais e generosos, pela via da sabedoria.

Abraços    ****

Vivi

COMPAIXÃO – IMPULSO NATURAL

Do ponto de vista evolutivo, nós seres humanos, conquistamos nossa eretibilidade e com ela um cérebro límbico com uma camada cortical, onde emoção e cognição podem ser expressas por uma consciência que lembra de um passado, imagina e sonha com um futuro e se faz no presente. Biologicamente avançamos mas, a nossa humanização ainda está por ser conquistada, embora que já tenhamos toda a sua expressão em nossos corpos. Somos cordiais, somos gentis, somos compassivos naturalmente.O que nos falta é acessar e cultivar estas “virtudes” em nossas relações de convivência, com o outro, os outros, o nosso meio e conosco mesmo.É inegável a nossa preocupação compassiva com os outros. Um sentimento que está presente em todos os seres humanos. Ocorre que, muitas vezes este sentimento vem disfarçado com outros sentimentos e pela desatenção não conseguimos percebe-lo e portanto, acessá-lo.Quando conseguimos nos desapegar dos padrões habituais, como a ansiedade, a aprovação do outro e tantos outros sentimentos que geram formas egoístas, podemos claramente nos conectar com o melhor e o maior do ser humano. Quando nossas ações são efetivadas desprovidas da mentalidade empresarial, econômica, geradora de grandes tensões, somáticas e psíquicas, podemos nos conectar com a generosidade suprema, a essência mais profunda do humano.Somos naturalmente compassivos, precisamos apenas acordar de um sono que nos distancia da nossa verdadeira essência.

Abraços    ****

Vivi

RETRATO DO INTERESSE INDIVIDUAL

O binômio pessoal/social acompanha o humano ao longo de sua história e de sua vida, afinal somos ao mesmo tempo indivíduo e sociedade, somos uno e múltiplo ao mesmo tempo.Embora que, nossa história de lógica e racionalidade busque definições, estamos e estaremos sempre tangenciando esta dualidade que nos faz um e múltiplo.Porém, este aparente paradoxo não se encontra na estática mas na dinâmica viva da vida, no pulso. Aprender a lidar com esta pulsação, equilibrando-a é também uma arte, a arte do viver na relação de polaridade.Os seres humanos vivos são sistemas relacionais,que se estabelecem na  co-dependência. Embora que o cenário capitalista retrate a face individualista do humano e seus interesses individuais, a dinâmica só acontece em relação e na relação, mesmo que seja no imaginário pessoal. Um olhar mais refinado pode revelar que a pessoa humana tem estado na busca de interesses que orbitam em torno da necessidade de elogios, fama, amor ou poder. Mas, para isto precisamos de um outro, que me elogie, me ame, me conheça, na relação que irá se estabelecer. Até mesmo o desejo de prazer se estabelece na co-dependência de um outro em relação. Fato é que, mesmo o interesse pessoal sempre se dirige a um outro, na mesma proporção que é dirigida ao SI mesmo, pessoal. Será então que poderemos reverter as nossas relações do egoísmo para a cordialidade da compaixão? Vivemos e convivemos na relação. Não há vida sem relação. Vida é conexão. Será que podemos sustentar relações mais salutares em nosso viver e conviver? A palavra chave é sustentabilidade com cordialidade e para isto precisamos de atenção e presença, clareza de intenções.

Abraços   ****

Vivi

PASTORES E PASTAGENS

Considerando a chamada “visão econômica da mente”, há uma parábola citada por Francisco Varela que diz respeito às preocupações éticas.”A parábola descreve uma situação na qual alguns pastores pastoreiam seus rebanhos em uma pastagem coletiva. Cada pastor sabe que lhe é interessante aumentar o tamanho de seu rebanho pois, enquanto cada animal adicional lhe traz benefícios, o custo de sua alimentação e o dano causado à pastagem é dividido por todos os pastores. Como resultado, cada um dos pastores racionalmente aumenta o tamanho de seu rebanho até que as pastagens coletivas sejam destruídas, e, com elas, todos os rebanhos que nelas se alimentam. A preocupação do cientista social é como conseguir que um grupo de pastores com interesses individuais racionalmente coopere na manutenção das pastagens comuns esgotáveis.” Será que esta astuta metáfora tem algo haver com a nossa situação atual, onde o individualismo tem imperado, sempre querendo levar vantagem em favor de interesses particulares? Até quando o raciocínio frente ao lucro – conseguir o máximo ao menor custo – permanecerá na mente do “Homem econômico”? Qual é a motivação que nos tem impulsionado neste contemporâneo? Será que até o altruísmo será subjugado por uma postura de utilidade de ganho individual, do ponto de vista psicológico, ao se beneficiar uma outra pessoa ou grupos? As pessoas desatentas infelizmente não percebem o alcance destes raciocínios, geradores de atitudes egóicas, que violentam a integridade da pessoa humana. A passagem de uma cultura que tem privilegiado o individualismo para uma cultura que considera o outro e a relação, está na dependência de uma educação persistente, ética e amorosa.A passagem de um eixo verticalizante e controlador, para uma relação horizontal de co-dependência, vai depender de um esforço conjunto com atenção, presença e consciência.
Abraços ****
Vivi

O QUE ESTÁ ACONTECENDO ?

O sociólogo francês Michel Maffesoli, conhecido por suas análises sobre a pós-modernidade, nos apresenta a seguinte reflexão: “Uma mudança central está acontecendo. A matriz social moderna revela-se cada vez mais infecunda. A economia, os movimentos sociais, o imaginário e até mesmo a política estão sofrendo a ressaca de uma onda gigantesca cuja real amplitude ainda não se consegue avaliar.” Estamos diante de desafios e dilemas éticos, onde não sabemos ao certo para onde ir nem como agir, pois as vias anteriores não se encaixam mais, não há mais conectividade. As situações se apresentam com tal configuração, dando a impressão de que, até mesmo os avanços conquistados pela humanidade nos últimos anos, estão perdendo força com uma aparência de retrocesso. Conquistas que imaginávamos definitivas parecem que estão retornando aos moldes anteriores, como se fosse um retorno ao violento e porque não, ao bestial. Será que estes avanços estão se dissolvendo ou estão se “coagulando”? Será uma saturação? São marchas e contramarchas, mutações e transmutações, provocadoras de desconforto e sensações vertiginosas que desestabilizam os alicerces que fundamentaram a modernidade. O que vem a ser o tão prometido progresso? Seria um grande mito apenas?  Ainda faz sentido? Será que o “Deus” de Nietzsche está morto? Então quem nos “salvará”? A cultura, a política,a ciência, um coletivo tribal, onde poderemos encontrar explicações sobre o que está realmente acontecendo neste contemporâneo? Teremos chances para nos humanizarmos? Sem a coragem da reflexão e isolados no egoísmo dos apegos aos padrões de pensamentos e idéias e lógicas mercadológicas, consumistas, não conseguiremos encontrar caminhos e possibilidades. Sem a coragem de ser capaz de um olhar refinado e profundamente honesto para o SI pessoal e ao mesmo tempo para o Nós do coletivo, da igualdade e da diversidade, não teremos a menor possibilidade de nos aproximar para reconhecer o que está acontecendo. Reflexão e inflexão, retornar ao “in” do interno para “ex” do externo ao mesmo tempo, a um só tempo e ainda “juntos”, no diálogo sincero, desprovido dos apegos da miséria da ignorância. Precisamos acordar para sair da lógica do “rebanho”, do “homem massa”, que se deixa automatizar porque não pensa, não pausa e se nega a refletir para ver além do marketing sedutor e hipnotizante.

Abraços    ****

Vivi

O APEGO QUE NÃO PERCEBEMOS

Desejo e apego  são fontes intermináveis de sofrimento. Desejamos intensamente algo e ao mesmo tempo, nos apegamos a este algo como se fosse a razão última da nossa existência. Com um pouco mais de reflexão e cuidadosa observação, é possível perceber que esta atitude mental geradora de emoções destrutivas, é desprovida de consciência. Ou seja, as pessoas distraídas e desabitadas de si mesmas, não conseguem perceber que estão aprisionadas numa rede perversa de pura “ignorância”. Ignorância aqui, no sentido de ignorar, de não saber, não se reconhecer neste aprisionamento, neste círculo vicioso e condicionante da mente, que se apega aos padrões mentais e não consegue se libertar deles. A negação insistente desta armadilha, pode levar alguns ao extremo do niilismo, ao solipsismo. Este é o lugar onde a fonte da conduta egoísta jorra as suas águas. O maior desafio é fazer as pessoas entenderem que sofrem, porque se apegam a algo que não tem consistência, nem existência própria. Esta forma de ser, está tão arraigada nos modos de estar neste mundo que nem se percebe. Sair desta armadilha é a tarefa de um ser humano, de uma pessoa que busca a sua liberdade. “Quando a mente que raciocina não mais se apega e controla,… acorda-se para a sabedoria com a qual nascemos, e surgem energias compassivas sem pretensão”.Trungpa.

Abraços    ****

Vivi

A EXPERIÊNCIA QUE FAZ A DIFERENÇA

Uma coisa é falar sobre algo, outra coisa é ter a experiência viva, somática, concreta, sobre este algo. Representar ou repetir informações difere totalmente de um conhecimento que é vivenciado, experimentado, incorporado por uma pessoa. Quando vivido, o conhecimento adquire um “novo sabor”. Aqui não há mera repetição de palavras automatizadas, mas um corpo, um tom de voz, um gesto, uma face, que expressa aquilo que se conhece, porque se vive e se reconhece. Alguém que sabe de SI, porque está conectado com seu viver. É este viver corpado que faz toda a diferença no processo pessoal de autogovernavilidade e em todos os relacionamentos. A prática que incorpora o conhecimento é coerente com o SI mesmo.Sem a experiência vivida o conhecimento se torna uma interpretação imposta sobre a pessoa e seu meio, muito do que temos presenciado neste contemporâneo, um colapso na qualidade dos relacionamentos. Este cenário pode ser fonte de inúmeros desentendimentos que geram conflitos e distúrbios na comunicação. Sem reflexão e sem incorporação do conhecimento, as pessoas se entregam aos automatismos condionantes, aos padrões repetitivos, caindo na armadilha das patologias, onde o capitalismo entra com força total na medicalização. Sem vivência não pode haver pessoalização, é pela experiência que o humano pode aprender, diferenciar-se e ser verdadeiramente um ser humano.

Abraços    ****

Vivi

ANSIEDADE CARTESIANA

“Se penso logo existo”, foi uma afirmação cartesiana que tem marcado o pensar ocidental.Nesta esteira, o conhecimento vem se deparando com a relação de polaridade entre o subjetivo e o objetivo. Aqui perguntas emanam: o que de mim é subjetivo e o que é o objetivo? Objetivo e subjetivo dialogam ou são antagônicos, assim como abstrato e concreto.Seria a dimensão objetiva de um caráter mais concreto e pragmático e o subjetivo de caráter abstrato? O que disto é mensurável? Só tem existência o que podemos medir? Nestas reflexões ao longo dos anos de produção de conhecimento, muitas posturas surgiram com aqueles que creditaram valor ao objetivismo e os que validaram o subjetivismo. Ocorre que, do ponto de vista da ciência cartesiana surge a ansiedade cartesiana, uma vez que nestas dimensões não é possível separar, o que é de mim objetivo do que é subjetivo. Esta ansiedade oscila entre o subjetivismo e o objetivismo e aqui caímos na “armadilha” da representação. Representação como projeção e como recuperação. Nesta ânsia quer-se explicar a percepção e a própria cognição. Quer-se projetar o mundo e ao mesmo tempo recupera-lo. São ansiedades advindas de uma polaridade num âmbito onde não é possível haver separação, afinal somos ao mesmo tempo objetivos e subjetivos. Portanto, a reflexão deverá considerar a ansiedade cartesiana e seus efeitos na experiência vivida, pelo corpo como estrutura e pelos mecanismos cognitivos. Portanto, atenção!

Abraços    ****

Vivi

INCORPORAR E REALIZAR

Quando se pensa em felicidade,muitas palavras aparecem referindo-se a um certo estado interno. Alguns associam ao humor, outros ao consumo, conquistas e até realizações. Mas aqui cabe a pergunta: que realização? Realização do que? Felicidade é um estado passageiro ou perene? Felicidade e euforia, são estados diferenciados? Felicidade é um estado que depende de uma certa qualidade cognitiva? Ela passa pela reflexão ou independe dela? Verifica-se com certa facilidade, que a felicidade suscita muitas faces.Sabemos que ela está diretamente ligada às nossas emoções e que depende de um sujeito que quer ser feliz, portanto, não é algo que se conquista e pronto, mas, é um estado interno que necessita de permanente presença atencional para ser cultivado. Depende de motivação. Felicidade é um estado de realização interior, vivido, incorporado no cotidiano das ações. Felicidade é uma conquista permanente, momento a momento na direção da capacidade de viver uma vida de plenitude. Mas o que é viver uma vida de plenitude? Aqui, depende de escolhas pessoais. Quais são os valores que uma pessoa cultiva em si mesma, o que para ela tem valor, não preço, em sua vida. Felicidade é ação, é corpo, mente, história, ambiente, encontro, cultura. Sem incorporação não há realização. É preciso um sujeito que atue em sua vida. Atuação é presença com atenção,consciência, um saber de si, longe dos padrões condicionados, uma pessoa que reconhece os padrões habituais condicionantes e escolhe pela experiência somática da liberdade.

Abraços    ****

Vivi