DEMOCRATIZAR OU MILITARIZAR – UMA ESCOLHA

Neste momento histórico, onde muitas e diversas são as mudanças em todos os setores da expressão humana, há que se ter cuidado para não haver retrocessos. Ao lado das ondas facilitadoras do diálogo, da comunicação intercultural, das descobertas científicas e tecnológicas que favorecem o intercâmbio dos saberes e das linguagens, aparecem com certa evidência as tendências ao retorno das relações dominadoras, de controle excessivo, seja pelas vias religiosas ou pelo modelo militarista.  Travestidas com as vestes prometêicas e ilusionistas, na garantia de um “mundo melhor”, os cidadãos do planeta correm o risco, pela incapacidade de refletir e problematizar, de não enxergarem a realidade dos fatos e as segundas intenções, que estão por traz de algumas falas de grandes líderes.  Estamos diante de um momento bastante delicado da nossa humanidade, pois se como pessoas humanas e cidadãos,  não assumirmos nosso real posicionamento social, no compromisso e responsabilidade, podemos comprometer nossas conquistas humanitárias de longos anos. Portanto, todo cuidado é pouco, há que se ter muita atenção. Precisamos de ação conjunta e compromisso mútuo diante de tantos desafios, pois parece ser mais fácil colocar um chip na camiseta dos alunos do que ensina-los o caminho da responsabilidade e do respeito. Parece ser mais fácil mandar do que educar e dialogar. Estamos educando para que e por quê? O que significa educar? Que sociedade almejamos para as nossas futuras gerações? Democratizar é educar na liberdade, confiança e segurança. Militarizar é subjugar, estreitar, dominar, intimidar, desconfiar.  Toda ação é uma escolha, seja ela no micro como no macro, no indivíduo como no coletivo. Toda escolha tem consequências, no pequeno como no grande, afinal somos um único organismo vivo.

Abraços   ****

Vivi

EMPODERAR PARA TRANSFORMAR

 

Na cultura do instantâneo, do descartável e da superficialidade, o que se deseja é resultado imediato, na velocidade dos desejos capitalistas do mercado. Acontece que, no mundo natural não há árvore que cresce sem raízes. Na arquitetura, não há edifício que se sustente desprovido de alicerce. Sem a solidez da base não há como crescer, maturar, reproduzir para transformar, esta é uma lei natural.

Para transformar e mudar, é preciso primeiro empoderar. É o empoderamento que impulsiona a mudança. Sem auto-confiança, auto-estima elevada, apropriação das forças internas para acionar o potencial disponível pela própria natureza viva da vida, através da consciência, do conhecimento experimentado e praticado, não há como se pensar em mudança. Primeiro a raiz, depois o fruto, é a ordem natural. Esta dinâmica é válida tanto para o indivíduo como para o coletivo.

O organismo é um só. O coletivo é um organismo constituído pelos indivíduos que o compõe. Qualquer mudança para ser efetuada e sustentada é preciso primeiro empoderar, oferecer autonomia, autoregulação, autogestação e tanto faz se este AUTO é constituído por uma só pessoa ou por um grupo de pessoas humanas, em qualquer cultura ou comunidade.

Ocorre que, o empoderamento não é instantâneo, ele é construído conjuntamente, afinal ninguém existe isolado neste mundo. Empoderar, requer  tempo e espaço disponível, precisa de ritmo, continuidade, organização, confiança, liberdade e segurança, vividos muscularmente, organicamente  e não  nos discursos e retóricas profecias. Para transformar é preciso empoderar.

Abraços    ****

Vivi

LIBERDADE E CONFIANÇA

Liberdade e confiança são dois aspectos interdependentes da existência humana. Para ser livre é preciso confiabilidade e não pode haver confiança sem liberdade.  Sem liberdade não há confiança, há mando e subjugação. Sem confiança não há liberdade, há desmedida, invasão.  Liberdade com confiança é fruto de conquista interna pela capacidade autorregulatória.

A liberdade depende da capacidade de reconhecer e estabelecer limites com flexibilidade, adaptabilidade, pausa, percepção para poder ver em amplitude e atenção para regulação do tempo e do espaço.

A confiança depende da maturidade, que preserva a esperança e não abdica da ética. Relações confiáveis são preciosas. Elas acontecem no processo do viver, por conquista e renovação permanente.

A liberdade nutre a criatividade, viabiliza a inclusão, abre espaço para a diversidade. Todo ser humano para viver com saúde precisa da dinâmica destas duas hastes: liberdade e confiança em todas as suas relações, do mais íntimo de si ao mais grupal.

Em tempos onde a rede de internautas tende à desmedida, onde a intimidade perdeu seu espaço de preservação no “strip-tease da espiritualidade”, como diria Bauman, e o desrespeito invasivo pela necessidade de ser visto a qualquer custo, tem comprometido, corroído, patologizado as relações, a liberdade e a confiança estão minguando na desvalia das frustrações, do  isolamento e da insanidade.

Abraços    ****

Vivi

 

O CORPO E O SOCIAL

Nós seres humanos vivos, pelo fato de existirmos, ocupamos espaços no espaço terrestre. Este é também o nosso território, além do território do espaço da corporeidade de cada sujeito humano. Como vivos, afetamos e somos afetados pelo meio externo, que afeta o meio interno somático da nossa individualidade. Não há separação, é uma evidência. Segundo Foucault, é sobre o espaço do corpo que se exercem as forças de repressão, da socialização, da disciplina, da punição. As forças dos movimentos sociais, sejam elas, ideias, fatos, acontecimentos, tendências, modas, culturas, linguagens, estão constantemente atuando sobre o nosso corpo vivo, que interage  com todos estes vetores. Como estamos imersos neste processo, não nos apercebemos das inúmeras interferências somáticas e então, somatizamos. Sabemos que o nosso sistema imunológico,  altamente sensível, fica vulnerável diante de tantas agressões,  geradas pela velocidade que tende a reduzir os tempos internos de processamento das informações. Expressões gestuais, a palavra articulada, o tom das vozes, o pulso respiratório e cardíaco, os ciclos de sono, atividade e repouso, o ritmo alimentar, tudo fica comprometido, diante das incontáveis agressões que o nosso corpo sofre ao longo da sua existência, no cotidiano vivido. Cada pessoa humana de acordo com a sua história pessoal , o meio em que vive e nas condições em que vive, responde de forma diferenciada. Felizmente, todos nós nascemos com um dispositivo: a capacidade de resiliência na busca pela homeostase para manter a sobrevivência. Porém COMO cada pessoa vai elaborar e processar os acontecimentos sociais em seu corpo, é algo imprevisível. Quanto mais atenção, mais percepção de si e percepção das forças sociais, maior é a probabilidade de respostas mais salutares no diálogo entre o meio interno e o externo, o externo e o interno, afinal eles se interpenetram, são permeáveis.

Abraços    ****

Vivi

ECONOMIA DO DINHEIRO

O poder do capitalismo transforma as relações sociais quando força os produtores a olharem as pessoas,  ou seja, os outros, como mero instrumentos, gerando individualismo e possessividade.  A economia do dinheiro, incentivada pelo livre mercado, tem dissolvido os vínculos  comprometendo as relações de  convivência. Passamos da condição social em que dependíamos de maneira direta das pessoas que conhecíamos pessoalmente, para uma situação em que estamos dependentes de relações impessoais e objetivas com as pessoas. Estamos estabelecendo pragmaticamente, relações de troca e com ela muitas vezes relações de conveniência, com segundas intenções. Há inclusive quem diga: “bons relacionamentos, bons negócios”. Na sociedade capitalista, o dinheiro é visto como representação suprema do poder social. É ele, o dinheiro, quem confere o privilégio de exercer o poder sobre os outros. Há quem diga também: “todo homem tem seu preço”. Ocorre que, o capitalismo na sua face de livre mercado, onde tudo pode ser consumido, comprado e vendido, não deixa impressões digitais da exploração no “pão de cada dia”. Sem reflexão, sem a pausa e um olhar educado para ver em perspectiva, a indiferença se torna uma constante diante dos desajustes relacionais, com brutais consequências para os cidadãos, comprometendo todo um processo construtivo de conquista, na direção de uma  democracia participativa.

Abraços    ****

Vivi

OLHAR OTIMISTA

Sair da cegueira pessimista que temos estado mergulhados, como um padrão cultural, que se nega a ver a face renovadora dos acontecimentos, tem sido um tremendo exercício para aquelas pessoas que se negam a ficar encalhadas no pântano da preguiça conveniente. Ver na história, não apenas o que desmorona e morre, mas, também o que surge e ganha vida, é uma escolha pessoal e permanente. A tendência ao pessimismo impede o olhar em perspectiva que permite  a contextualização dos eventos, bloqueia a criatividade e constrange a vitalidade. Resultado: ficamos aprisionados na mesma “mesmice”,  entendendo que voltar aos “fundamentos dos fundamentalismos” será a solução para todos os problemas sociais. Educar-se para o otimismo, é se permitir enxergar com amplitude o tempo presente, conferindo lucidez e inteligência aos obstáculos e desafios apresentados. Se a vida traz em si a capacidade de plasticidade, flexibilidade, adaptabilidade para manter  dinâmica a homeostase, garantindo um estado salutar para o organismo, negar esta possibilidade é, negar a própria vida para si.

Abraços    ****

Vivi

COISAS DO CONTEMPORÂNEO

Da modernidade para a pós-modernidade, no contemporâneo,  onde  muitas coisas se  liquefazem, como diria Bauman, as mudanças são intensas e velozes.  A dinâmica global tem gerado desconstruções e novas possibilidades construtivas ao mesmo tempo.  A erosão do patriarcado, a instalação mundial do controle da natalidade, revolucionando a sexualidade e trazendo para  as relações a parceria informal, o assalariado, a Declaração dos Direitos Humanos pela ONU, são grandes marcas que evidenciam a mudança institucional da família. São mudanças numa dinâmica multidimensional, cultural, política e econômica, onde o novo desponta com intensidade muitas vezes assustadora. Será que estamos preparados para tantas mutações? Saberemos lidar com elas no cotidiano, ou ainda queremos lançar esforços para voltar no tempo e desocupar espaços conquistados nestes longos séculos de busca pela humanização?  É nossa responsabilidade nos educarmos para reconhecer e receber transformações que mudam completamente as nossas relações, sem se deixar cair nos fundamentalismos, na descrença, na superficialidade, na simplificação ou na atitude blasée que nos torna míopes.

Abraços    ****

Vivi

PARADOXOS DO CAPITALISMO

O  universo capitalista e tecnicista tem nos apresentado inúmeras contradições. Embora com certo tom determinista, as controvérsias são evidentes. Um olhar atencioso é de fundamental relevância. A globalização liberal muitas vezes em seu cinismo,  apresenta  encantos e também  vulgaridades, indo das generosidades às corrupções escandalosas. A comunidade global se encontra hoje numa profunda luta pela sobrevivência,  ao mesmo tempo que  busca sucesso social traz as  marcas  das exigências morais. Parece uma lógica divertida, mas é profundamente destrutiva. Toda atenção é pouca, para não cair nas garras da mídia que superficializam, geram vertigem pelo excesso de produtos e informações, aceleram, descartam e contradizem.

Abraços   ****

Vivi

O ANSIOSO E SUA ANSIEDADE

A pessoa ansiosa lida com os acontecimentos do cotidiano como se fossem verdadeiras crises. Quando tudo fica muito intenso não é possível encontrar caminhos para solução, as estratégias desaparecem junto com a criatividade. O excessivo rouba a capacidade de um olhar mais ampliado, gera a vertigem que desequilibra. Desprovida de confiança pela falta de equilíbrio, físico, mental e emocional, mais ansiosa fica a pessoa, sem condições de sair do círculo recorrente na qual se encontra, é tensão gerando tensão. Romper a espiral ameaça-excitação-ameaça gerada pelo estresse, impede a pessoa de respirar, se acalmar, relaxar e poder compreender o que de fato está acontecendo. Quebrar este ciclo não parece ser uma tarefa fácil, é preciso um querer interno, determinado e comprometido, é preciso esforço pessoal, que só a pessoa pode realizar, se de fato quiser. A ansiedade é um estado que tem acometido muitas pessoas nesses tempos de alta aceleração, onde tudo se parece urgente, onde sempre está faltando algo, onde é preciso mais e mais. Porém, este é um quadro que,  se não houver consciência e percepção do estado de ansiedade e aceleração, que muitas vezes gera hostilidade da pessoa para com ela mesma, pouco provável será a contribuição da farmacologia. Contudo, há saídas para este labirinto e um dos caminhos que tem se mostrado eficiente é a prática regular da Meditação na Plena Atenção, a meditação que treina a capacidade de prestar atenção. Os neurocientistas em suas pesquisas estão evidenciando o valor da prática meditativa em casos de ansiedade e estresse. Vale tentar.

Abraços    ****

Vivi

REAVALIAR PARA NÃO RETALIAR

A experiência já demonstrou a cada pessoa humana a força que possui uma emoção. Algumas emoções se apresentam com tanta intensidade que,  para controlá-las  é preciso uma grande dose de autodeterminação, muita clareza interior com grande qualidade de presença e foco. As emoções de maneira geral possuem “tonalidades diferenciadas”. Reconhecê-las é uma tarefa de suma importância. A raiva, por exemplo, é uma delas. A raiva pode se mostrar de varias formas, em tons variados, da timidez ao ódio, podendo gerar respostas incontroláveis. Mesmo causando arrependimentos posteriores as marcas ficarão. Uma das respostas à raiva é a retaliação, o desejo de vingança, que pode ser imediato ao ato ofensivo ou contínuo, corroendo lentamente tanto o ofendido como o próprio ofensor. Sair deste círculo vicioso e doentio, requer boa vontade, atenciosidade e consciência, exige um profundo e determinado querer . Um dos caminhos é a via da reflexão. Sem consciência não há reflexão, há impulsividade. É a reflexão que permite a compreensão do cenário, da história, do contexto onde foi gerada a emoção da raiva, altamente corrosiva.  O refletir,  pede calma, pausa, por menor que ela seja.  Neste tempo de espera é possível resignificar, reavaliar todo o processo gerador da expressão raivosa, seja por palavras de ofensa, gestos, tom de voz, olhares, para então ser possível não se deixar cair nas garras da retaliação. Retaliar é uma expressão ainda muito presente em nossas relações, pois ainda acreditamos que causando mal à pessoa que me fez mal, poderei acabar com a maldade. Esquecemos que, enquanto o ser humano não repensar este padrão de resposta frente ao mal, ele continuará presente em nossas relações, corroendo-as e corrompendo-as. O diálogo reflexivo começa no íntimo de cada pessoa. Reavaliar para não retaliar, pede um educar, uma autoeducação sincera e permanente.

Abraços    ****

Vivi