O LÍDER E SUA RESPONSABILIDADE SOMÁTICA

O líder, como um ser humano vivo, com seus dispositivos que interligam corpo-mente, corpo-cérebro, tem ou deveria ter assumidamente, a responsabilidade com a sua expressão somática, seus gestos, suas falas, tom de voz, expressão facial, sua sustentação corpórea no espaço frente às pessoas de sua liderança. O líder sendo um educador por princípio, não pode deixar de considerar um aspecto importantíssimo na comunicação, na convivência, nas relações interpessoais : neurônios- espelho. Os neurônios-espelhos são o supremo dispositivo de simulação dos estados do corpo no cérebro. No contato da presença, as pessoas imitam somaticamente a expressão do líder , é o momento em que o liderado estabelece uma relação conectiva. Um líder cuja expressão, no seu gesto, sua postura se mostra acelerada, descomposta, “torta”, agressiva, impositiva, desorganizada, agitada; por imitação a resposta será ou de recuo para proteção ou mais desorganização. Se para vincular e conectar o líder almeja desencadear um processo empático de identificação, sua responsabilidade de sustentação de uma expressão somática organizada, bem posturada , é de fundamental importância. Estas considerações não são meramente ilusórias, românticas e superficiais, mas fundamentadas na neurociência. Antonio Damásio, afirma com total clareza que “ a existência de estreitas interligações entre um movimento real do corpo, as representações dessa movimentação nas esferas musculoesquelética e visual, e as memórias que podem ser evocadas em relação a algum aspecto dessas representações”, desencadeiam emoções e sentimentos emocionais, assim como todo um processo de regulação da vida. Entender que, se temos o nosso corpo na mente, representamos na mente, geramos imagens e evocamos memórias continuamente e todo este sistema complexo e refinado do cérebro, do corpo, da mente, interfere na qualidade das relações que estabelecemos com o outro e com todos os outros. Portanto, a responsabilidade na postura, movimento, expressão corporal do líder é fundamental, pois de acordo com a sua expressão, por espelhamento serão as respostas. Portanto, é algo que não poderia ser negligenciado jamais. Entendendo líder como aquela pessoa que, formal ou informalmente, exerce um papel de representação decisivo para o outro. É aquele ou aquela que pode “contaminar” para o bem ou para o mal, porque dispõe de autoridade. Abraços **** vivi

UMA DANÇA INTERATIVA

Com os avanços da biologia e da neurociência, que utilizam os dispositivos tecnológicos mais avançados disponíveis para pesquisa, sabe-se com total clareza a relação recíproca entre corpo e cérebro. O corpo humano vivo está em contínua comunicação com o seu cérebro. Aliás, é uma comunicação de mão dupla do corpo para o cérebro e vice-versa. Corpo e cérebro, ou melhor corpo-cérebro, executam uma contínua dança interativa . Estados cerebrais, estados mentais e estados corporais, funcionam integradamente, num processo permanente de trocas informacionais. O corpo informa ao cérebro de seu estado, assim como o cérebro informa ao corpo sua condição e ou necessidades, de tal forma que o cérebro possa gerar respostas corretivas à mudanças necessárias quando a vida estiver ameaçada. Interessante é também a capacidade do cérebro, independentemente do que lhe for solicitado, dizer ao corpo como construir um estado emocional. Nesta perfeita e até misteriosa dança interativa há uma sabedoria, a inteligência da vida. Esta é a dança que já é, basta apenas que possamos viabilizar, pela consciência, que ela se expresse, desde os mais refinados e quase imperceptíveis movimentos, até os mais amplos solos apresentados no palco da vida. Dançar é se permitir à vida, é se permitir à experiência interior, é se conectar com a revelação viva da vida em toda a sua grandiosidade, afinal o gesto é sublime, assim como sublime é a alma de quem dança a dança da consciência na presença de cada pequeno grande gesto. É confiar e se entregar ao sagrado. Abraços **** Vivi

GESTOS – UMA CONVERSA LOCOMOTORA

Contactar para entender o sistema locomotor é uma atitude que demanda presença. Sentir-se presente num organismo vivo com qualidades sensório motoras, é fruto da ação focada, de um sujeito que aprendeu a sustentar-se em seus processos psíquicos, relacionais, químicos, afetivos e cognitivos. Evolutivamente, o humano conquistou a postura ereta e com ela a capacidade de se ajustar nas pressões exercidas pela força da gravidade sobre seu corpo em funcionamento. Forma e função são propriedades inseparáveis. Fazemos corpo, assim como fazemos tecidos somáticos e “psicoemocionais” dentro da nossa história genética, social e cultural. Através dos gestos, o ser humano estabelece uma conversa com seu sistema locomotor, acompanhado de todos os seus conteúdos psicoemocionais. Cuidar do gesto, aprimorá-lo, refiná-lo é cuidar da expressão singular da pessoa humana, dentro de seu meio, recebendo e respondendo às inúmeras informações que chegam ao centro cerebral através dos sensores somáticos. O conjunto de ações musculares e articulares viabiliza uma variedade de possibilidades motoras, que vão sendo conquistadas ao longo de toda uma existência de um organismo vivo. Descer, subir, torcer, enrolar, esticar, criar esfericidade, fazem parte da cartela de movimentos biomecânicos possíveis de um corpo humano vivo e dinâmico. A educação do gesto é, portanto, uma porta de entrada para uma expressão somática mais saudável e esteticamente mais atraente, afinal eficiência e beleza também são relevantes. Abraços **** Vivi

GERIR VIDA

A relação corpo e mente nos territórios das práticas corporais e terapêuticas, que vieram em ondas do oriente para o ocidente no século XX, foi tema de grandes discussões. As pesquisas da neurociência apresentam com total clareza a ligação corpo-cérebro, afirmando que a grande tarefa de gerir vida, consiste em gerir um corpo e que esta gestão se torna mais precisa graças aos circuitos neuronais que trabalham nesta tarefa, via mensagens químicas ou excitação de músculos. O cérebro tem a capacidade de criar mapas. Ele produz os mapas das estruturas que compõem o corpo, mapeia os estados funcionais que os componentes do corpo assumem. Os mapas cerebrais são a base das imagens mentais e o cérebro como criador de mapas, introduz o corpo como um conteúdo do processo mental. Neste processo, as imagens mapeadas do corpo pelo cérebro, influenciam o próprio corpo em que se originam. Portanto, é possível concluir, ser de fundamental importância a qualidade do contato que o ser humano possui com o seu próprio corpo. A qualidade das imagens que a pessoa humana vai construindo sobre si mesma, o seu esquema corporal, são decisivos para o seu bem-estar-bem, pois conforme a imagem que ela vai formando do seu corpo serão as imagens que ficarão registradas nos seus mapas cerebrais e as respostas neuro-químicas e motoras que virão. A qualidade do gesto, da expressão gestual, da forma como uma pessoa se desloca no espaço, como se auto-maneja e se auto-regula, é de fundamental importância para a qualidade das respostas somáticas e psíquicas que serão apresentadas por este processo complexo, vivo, que é corpo-mente. Cérebro, corpo e imagens, estão inter-relacionados. São componentes que influenciam permanentemente o próprio corpo em que se originam. Movimentos automatizados, distorções perceptivas, empobrecem a consciência. Abraços **** Vivi

ESTRATÉGIAS DA LENTIDÃO

Em artigo publicado na revista semanal Carta Capital, Thomaz Wood Jr. apresenta a seguinte referência: “um filósofo norueguês – Guttorm Floistad – conferiu ao movimento poesia e princípios: ” A única coisa que podemos tomar como certeza é que tudo muda. A taxa de mudança aumenta. Se você quer acompanhar, melhor se apressar. Esta é a mensagem dos dias atuais. Porém, é útil lembrar a todos que nossas necessidades básicas não mudam. A necessidade de ser considerado querido! A necessidade de pertencer. A necessidade de estar próximo e de ser cuidado, e de um pouco de amor! E isso é conseguido apenas pela desaceleração das relações humanas. Para ganharmos controle das mudanças, devemos recuperar a lentidão, a reflexão e a capacidade de estarmos juntos. Então encontraremos a verdadeira renovação.” “ Oposto ao movimento fast que invadiu nossos espaços a partir do comer, aparece no cenário o movimento slow, propondo a desaceleração, como estratégia de lentificar nosso fazer: no alimentar-se, no fazer ciência, na produção de conhecimento, nas relações, no consumo, e segue por ai… O descartável da “mcdonaldização” tem se mostrado completamente inviável em todos os sentidos, pois a natureza não tem sustentabilidade e afinal o que faremos com o lixo produzido. O descartável das relações através do “ficar”, no “ usa e joga fora”, traz como consequência os filhos, os sentimentos e ressentimentos produzidos. Então o que faremos? São questões que este modo de conviver consumista, do prazer imediato, impensado e instantâneo, desprovido de qualquer reflexão, gerando mais lixo, que vai poluindo ambientes, territórios e consciências, requer de forma imperativa, estratégias criativas da lentidão. Sem pausa para degustar, considerar, metabolizar, maturar, seremos todos incapazes de viver nossa verdadeira humanidade. Quem sabe, silenciar um pouco em tudo que fazemos, reduzindo o barulho e a agitação interna, permita ao ser humano se reconectar com os ares amorosos da sua alma. Abraços **** Vivi

APRIMORAR O ESPÍRITO HUMANO

Tanto as tradições religiosas como as espirituais, ao longo da história da humanidade, compartilham um propósito comum que é o aprimoramento do espírito humano. Os dias da contemporaneidade tem evidenciado um afastamento entre religião e espiritualidade, embora que tenham direções comuns. As tradições espirituais e as vertentes da mística religiosa, oferecem a meditação como um caminho para a autoconsciência, a auto- realização e transcendência, tendo o silêncio como um lugar de cultivo e aprimoramento do espírito humano. A sabedoria da meditação inclui a sabedoria do silêncio, pois é ele que permite , através da disciplina, a verdadeira peregrinação na direção do crescimento espiritual. Como prática, a meditação harmoniza os aspectos discordantes da consciência, na compreensão e experiência de unidade, revelando aspectos intrínsecos da natureza humana: compaixão, generosidade, tolerância, perdão, bondade, gentileza, paz, alegria, criatividade. Ao liberar e libertar dos aprisionamentos estas qualidades potenciais inerentes da consciência humana, a meditação avança na direção da completude humana, um ser humano pleno. Ser bom, uma pessoa que é bondosa, significa simplesmente que ela tem as dimensões externas e internas unidas, em harmonia com a sua verdadeira natureza. Com a prática, a meditação estabelece uma coerência tranquila no interior do ser humano, estendendo para os outros humanos no viver da vida, no cotidiano relacional. Aprimorar o espírito humano, é estar na completude revelada em cada ato e em cada pensamento, é estar na felicidade genuína e bondade amorosa, é estar livre para que a generosidade da compreensão possa permear encarnadamente e espiritualmente, a pessoa humana. Abraços **** Vivi

MAIS CAMADAS DE SI

O ser humano vivo está em constante produção de si, produzindo histórias, ambientes, expandindo e recolhendo em seus pulsos. No constante processo de produção de si, nos ambientes onde vive e convive em meio aos acontecimentos, o vivo funciona como um verdadeiro processador ambiental, na medida em que afeta e é afetado pelos ambientes nos encontros. Produzindo a si mesmo, este vivo vai se complexificando através dos processos de auto-seleção e replicação. Para a sua organização e estabilização, o corpo vivo pede ambientes confiáveis e o respeito pelos tempos formativos. Neste processo relacional, este corpo vai solidificar e projetar para o mundo mais camadas de Si e fazendo mais mundo. Se auto-regulando, se auto-formando, se auto-reconhecendo, o vivo vai se auto-reparando, construindo e formando mais camadas de si mesmo, nos pulsos, fluxos, canais, eixos, direções de forças somáticas, num permanente jogo adaptativo, de dentro para fora e de fora para dentro. Estar em contato com o corpo vivo, reconhecendo-se, é habitar-se, encarnar-se, é ser processo dentro da biosfera. São camadas de experiência, no coletivo e no indivíduo. Isto é também política e ética. Abraços **** Vivi

TERRA FÉRTIL

Cada momento e cada acontecimento em nossas vidas, de alguma forma deixa uma marca. Tudo que fazemos ou deixamos de fazer em nosso viver, deixa um rastro. Algumas marcas se mostram com grande evidência, outras, porém, são quase imperceptíveis em nossa consciência. Embora que não tenham expressão aparente, não significa que inexistam. Metaforicamente, é possível pensar em sementes que são colocadas no terreno da consciência, que um dia poderão germinar. É pela qualidade da presença e da atenção, fruto de um cultivo interior, que poderemos escolher quais as sementes que serão germinadas em nossa intimidade. Dependendo da semente teremos os frutos. Podemos até não ser responsáveis pelas marcas dos frutos dos acontecimentos, mas somos absolutamente responsáveis pelas escolhas das sementes que queremos semear em nossa interioridade. Além disso, somos igualmente responsáveis pela qualidade do terreno que receberá as sementes. Terra fértil é aquela cujo húmus possui a qualidade da liberdade, da espontaneidade, do amor, para gerar a vida nova através do diálogo ininterrupto com o divino. Aqui é o território da presença atenciosa e disciplinada, que não se contamina pelo automatismo conveniente do prazer imediato. Cultivar terras férteis e abundantes de amor e compreensão, para receber boas sementes que darão bons frutos e renovarão a vida, onde poderemos receber as sementes da liberdade responsável, é uma opção pessoal. Contudo, se estivermos apegados à escravidão dos desejos, nos distanciaremos do divino amor e seremos incapazes de sentir e dialogar com a presença infinita e manifesta que fala ao coração. Abraços **** vivi

PENSAR E EXISTIR

Pensar é sem dúvida um ato e um exercício. Como ser humano e portador de uma inteligência e racionalidade, o pensar acontece de forma tão automática que pode até se tornar imperceptível, pois o que não nos falta são pensamentos. Mas não é deste pensar automático, distante da presença e vazio da reflexão a que me refiro, mas de um ato pensado do pensar, cujo pensador dispõe do tempo necessário para que a experiência possa fazer sentido ou encontrar um sentido. Sentido não é julgamento ou análise valorativa, mas sentido que tenha significado à existência daquele que pensa. Quando Descartes coloca para o limiar da filosofia moderna, conduzindo o pensamento para um lugar comprometido com a objetividade a quase fórmula – “penso, logo existo”, ele ressalta a lógica como fundamento. Muito anterior à Descartes, Santo Agostinho se debruça em suas reflexões trazendo à luz da consciência – “se me engano, existo!” Talvez seja esta uma certeza irrecusável que se inclui na dúvida existencial em direção à verdade e ao sentido da existência, onde o pensamento é incapaz de ser reduzido à mera objetividade, mas uma existência que vive uma atividade em exercício presencial no ato de pensar, de querer e amar. Uma presença plena e inseparável de suas dúvidas. Uma existência que intui o si mesmo, implicado no próprio ato e experiência do pensar. Uma dúvida que pode trazer à luz a inexplicável existência, uma dúvida criativa. Um ser que existe e, portanto de consciência e conhecimento, um ser de sensibilidade que inclui o explicável como também e, sobretudo o inexplicável da existência. Uma existência que vive o ponderável e o imponderável de si mesmo. Abraços **** Vivi

TEIMOSIA

Alguns chamam de persistência, pode ser determinação, outros chamam de fé, mas talvez seja possível nomear esta força interna que resiste aos desafios e passa pelos obstáculos, de “teimosia”. É a atitude que teima em não abrir mão da vida, porque acredita no mundo e no amor, como elo misterioso de conexão com tudo que vive, que não desiste, mas insiste em depositar todos os esforços para que este amor se fortaleça através dos vínculos nas relações. Esta tem sido ao longo da história do mundo, o lugar da confiança e sustentação da continuidade da vida. Uma atitude silenciosa na mais profunda intimidade da pessoa humana, onde os elos de ligação quase que imperceptíveis, se fortalecem na teia da vida, unicamente nutridos pelo valor da sabedoria, compaixão e compreensão amorosa. Aparentemente pode parecer ingenuidade, mas um olhar ampliado conseguirá visualizar no horizonte os pontos de interligação, de interconectividade, que integram e complexificam, sincronizando e coordenando no tempo e no espaço as passagens do pulso vital. Expandindo mais em alguns momentos, recolhendo em outros, mas pulsando na continuidade da força geradora da vida. Teimosia é o que move a ação que desobstrui os canais de passagem da vida. Teimosia é a fé, apesar dos pesares, afinal todo dia é um bom dia para nascer, assim como todo dia é um bom dia para transcender e transformar, renovar e religar. Abraços **** Vivi